As relações abusivas, na perspectiva psicanalítica, revelam dinâmicas inconscientes de repetição e busca de sentido que ultrapassam a consciência racional do sujeito. Freud (1920), em Além do Princípio do Prazer, introduziu o conceito da compulsão à repetição, que explica por que o sujeito revive experiências dolorosas do passado em novas relações, na tentativa inconsciente de dominá-las ou ressignificá-las.
Esse mecanismo evidencia o retorno do recalcado — aquilo que, não simbolizado psiquicamente, retorna pela ação (FREUD, 1920). Assim, quem vive relações abusivas pode estar repetindo modelos de afeto internalizados na infância, nos quais o amor se associa à dor, à submissão ou à ausência.
Lacan (1966) aprofunda essa compreensão ao propor que o desejo humano é estruturado pela falta. Ninguém deseja conscientemente sofrer; o que o sujeito busca é preencher o vazio de uma falta fundamental. Contudo, ao tentar satisfazer esse anseio, cai na armadilha da repetição: busca no outro o que nunca poderá ser plenamente alcançado — a completude.
Em certas configurações subjetivas, essa busca conduz ao que Lacan denomina “gozo mortífero”: um prazer paradoxal que emerge do sofrimento (LACAN, 1972). O sujeito, preso à dor, encontra nela uma forma de se sentir vivo e desejante, ainda que à custa de sua integridade emocional.
Casos clínicos ilustram esse fenômeno. Uma mulher que repete vínculos com parceiros controladores pode estar tentando reparar a relação com um pai ausente; um homem que permanece em casamento abusivo busca o amor que não recebeu da mãe disfuncional. Esses padrões de repetição revelam a força do inconsciente na determinação das escolhas afetivas (BLEICHMAR, 2011).
A psicanálise contemporânea propõe a simbolização como caminho terapêutico. Nomear o sofrimento, reconhecer o mecanismo inconsciente e compreender a origem psíquica da repetição permitem ao sujeito romper o ciclo do abuso. A clínica oferece espaço para transformar a dor em elaboração simbólica e possibilita o surgimento de novos modos de amar e ser amado.
O trabalho analítico, portanto, não se reduz à denúncia do abuso, mas visa reconstruir o sentido subjetivo da experiência, promovendo autonomia afetiva e maturidade emocional.
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