30 setembro 2025

Estratégias psicanalíticas contemporâneas: da interpretação à transformação

A psicanálise, desde sua fundação por Freud, sempre se estruturou em torno da interpretação como estratégia central de intervenção clínica. Contudo, a psicanálise contemporânea expandiu significativamente o seu repertório técnico, sendo hoje centrada em múltiplas modalidades de intervenção que englobam desde o manejo da transferência até estratégias de validação emocional (Ogden, 2004). Essa evolução visa acolher as demandas complexas da clínica atual, marcadas por assuntos com fragilidades narcísicas, traumas precoces e estruturas psíquicas heterogêneas.

O papel do cenário tornou-se fundamental, indo além de mera formalidade técnica. Ao garantir um espaço seguro e contínuo, o quadro já constitui intervenção terapêutica decisiva, especialmente para pacientes com histórico de instabilidade (Winnicott, 1953). O cenário não apenas delimita o campo psicanalítico, mas também transmite previsibilidade e acolhimento, possibilitando a emergência de processos psíquicos mais integrados.




A escuta contemporânea difere da concepção clássica de uma neutralidade absoluta. Atualmente, atualiza-se a escuta psicanalítica como ativa e multifacetada, abrangendo palavras, silêncios, gestos e comunicações não verbais (Green, 2005). Essa mudança permite intervenções que não apenas revelam conteúdos inconscientes, mas coconstroem significados e narrativas entre analista e paciente.

Dentre as técnicas hoje enfatizadas, destaca-se o manejo da contratransferência. Se antes era vista como obstáculo, atualmente é considerada uma fonte valiosa de informação sobre as dinâmicas inconscientes do paciente (Heimann, 1950). A percepção e elaboração do que emerge no analista ajuda a compreender padrões relacionais e defesas psíquicas, gerando soluções sofisticadas.

Outra estratégia relevante é a validação da experiência emocional. Pesquisas recentes em psicoterapia evidenciam que a acessibilidade empática do paciente fortalece a aliança terapêutica e a regulação emocional (Fonagy et al., 2002). Assim, a psicanálise incorpora elementos relacionais que se aproximam de modelos intersubjetivos e teoria do apego.

Ainda assim, técnicas como confronto cuidadosa, esclarecimento e elaboração ampliam a consciência do paciente sobre seus próprios estados mentais. Essa perspectiva dialoga com o conceito de mentalização , essencial para o tratamento de transtornos de personalidade e condições marcadas por falhas na simbolização psíquica (Bateman; Fonagy, 2006).

Por fim, a psicanálise contemporânea foca na função transformadora da relação analítica. O analista não se limita a revelar significados ocultos, mas atua como facilitador de novas possibilidades de existência. A clínica, hoje, é entendida como espaço de co-construção narrativa, correção relacional e flexibilização de defesas, conduzindo a experiências emocionais reparadoras (Mitchell, 1993).

Portanto, compreender as estratégias psicanalíticas contemporâneas é essencial tanto para o avanço teórico quanto para a prática clínica. O analista que se forma hoje precisa de escuta articular apurada, manejo técnico diversificado e sensibilidade à subjetividade do paciente, integrando ciência e clínica em benefício da saúde mental.

Referências
BATEMAN, A.; FONAGY, P. Tratamento baseado em mentalização para transtorno de personalidade borderline . Oxford: Oxford University Press, 2006.
FONAGY, P. et al. Regulação de afeto, mentalização e desenvolvimento do self . Nova York: Other Press, 2002.
GREEN, A. O Discurso Vivo . Rio de Janeiro: Imago, 2005.
HEIMANN, P. Sobre contratransferência. Revista Internacional de Psicanálise , v. 31, n. 1, p. 81-84, 1950.
WINNICOTT, DW Objetos transicionais e fenômenos transicionais. Revista Internacional de Psicanálise , v. 34, p. 89–97, 1953.
MITCHELL, SA Esperança e medo em psicanálise . Nova York: Basic Books, 1993.

29 setembro 2025

Cirurgia Bariátrica: O Desafio Psicológico que Vai Além do Balança

A cirurgia bariátrica, cada vez mais utilizada no tratamento da obesidade mórbida, vem sendo indicada como um procedimento que transcende a aparência física. Ao reduzir a capacidade gástrica e impactar diretamente na deficiência psicológica alimentar, a intervenção exige uma preparação rigorosa que muitas vezes é negligenciada pelo paciente. O olhar psicológico é essencial para que a cirurgia não se torne mais um ciclo de frustração, compulsão e sofrimento.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), a indicação do procedimento deve sempre ser acompanhada de avaliação multiprofissional, incluindo o suporte psicológico (SBCBM, 2023). Pacientes que chegam ao consultório em busca apenas de um laudo demonstram um desconhecimento sobre as implicações emocionais, cognitivas e sociais da cirurgia. Esse comportamento pode sinalizar a ausência de adesão a mudanças de hábitos — fator crítico para o sucesso do tratamento.




O pré-operatório costuma ser marcado por comportamentos de “despedida alimentar”, nos quais o indivíduo intensifica a ingestão de doces, frituras e bebidas, em um quadro que se aproxima da compulsão alimentar. Sem intervenção psicoterapêutica, esse padrão tende a se repetir no pós-operatório, com o risco de reganho de peso em médio e longo prazo (COUTINHO; APPOLINÁRIO, 2021).

Outro desafio significativo relatado pelos profissionais é a disforia corporal. Muitos pacientes, mesmo após perda substancial de peso, seguem com a autoimagem de obesidade, o que pode precipitar quadros de anorexia, ansiedade e depressão (CAMPOS; FERREIRA, 2019). Somam-se a isso as limitações alimentares permanentes, a possibilidade de cirurgias reparadoras e complicações clínicas, como dumping e fístulas, que desativam um acompanhamento constante.

Do ponto de vista da psicologia clínica, é necessário adotar uma abordagem integrativa, que contemple os fatores biopsicossociais. Isso significa olhar não apenas para a compulsão alimentar, mas também para a estrutura familiar, relações afetivas e suporte social do paciente. Estudos demonstram que pacientes com rede de apoio mais sólida apresentam melhores chances de adesão às mudanças permitidas (OLIVEIRA; SILVA, 2020).

A negligência a esses aspectos pode transformar o tratamento da obesidade em um risco existencial. Como destaca Freud (1920/1996), a reprodução de padrões sintomáticos tende a levar a sujeito novamente ao desprazer. Assim, sem tratamento da compulsão, a cirurgia pode se tornar apenas um paliativo, incapaz de romper com mecanismos psíquicos subjacentes.

Portanto, a bariátrica deve ser entendida como um processo, não um fim. A psicoterapia antes, durante e após a cirurgia é uma ferramenta essencial para ressignificar a relação com o alimento e com o corpo. O laudo psicológico não pode ser compreendido como mera formalidade, mas como parte de um processo clínico comprometido com a saúde global do paciente. Afinal, mais do que emagrecer, é preciso aprender a viver de outro modo após a cirurgia.

Referências

CAMPOS, CA; FERREIRA, LS Imagem corporal no pós-bariátrica: implicações psicológicas. Revista Psicologia e Saúde , v. 2, pág. 45-59, 2019.
COUTINHO, W.; APPOLINÁRIO, JC Compulsão alimentar: diagnóstico e tratamento. Diretrizes ABESO , São Paulo: ABESO, 2021.
OLIVEIRA, PR; SILVA, AR Rede de apoio social e adesão em cirurgias bariátricas. Revista Brasileira de Psicologia Clínica , v. 1, pág. 99-112, 2020.
SBCBM – Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Diretrizes clínicas para cirurgia da obesidade e metabólica. São Paulo: SBCBM, 2023.
FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: FREUD, S. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud . Rio de Janeiro: Imago, 1996.

26 setembro 2025

A conexão entre psicologia e educação física na promoção da saúde integral

A interseção entre psicologia clínica e educação física revela uma abordagem integrada fundamental para a promoção da saúde integral. Estudos indicam que a prática regular de atividades físicas contribui para a liberação de neurotransmissores como endorfina e adrenalina, que promovem sensações de prazer e bem-estar (Silva, 2022). 

Além disso, a atividade física é eficaz na prevenção e reabilitação de diversas condições, incluindo dependência química, obesidade e transtornos emocionais (Oliveira et al., 2023). 




A educação física, associada a um olhar psicológico, possibilita o desenvolvimento de autoestima, interação social e ressignificação pessoal, elementos essenciais na manutenção da saúde mental. 

O sedentarismo e o uso excessivo de tecnologias impactam níveis o desenvolvimento motor e social de crianças e adolescentes, tornando necessário o estímulo precoce à atividade física (Costa & Almeida, 2024). 

Questões relacionadas ao imediatismo e à automedicação alertam para o risco do uso de medicamentos como "atalho" para perda de peso e controle emocional, evidenciando a importância de intervenções multidisciplinares e educativas (Pereira, 2023). 

A genética, estudada como predisposição e não determinação, reforça a relevância do estilo de vida saudável na prevenção de doenças crônicas (Martins, 2022). Em resumo, a promoção da saúde mental e física integrada pela psicologia e educação física representa uma estratégia sustentável e sustentável para o envelhecimento ativo e qualidade de vida.


Referências
Silva, R. (2022). Neurotransmissores e bem-estar. Revista Brasileira de Psicologia, 48(1), 15-27.
Oliveira, M., Santos, A., & Lima, F. (2023). Educação física na reabilitação de dependentes químicos. Jornal de Saúde Pública, 15(3), 112-120.
Costa, D., & Almeida, L. (2024). Sedentarismo infantil e desenvolvimento motor. Revista Nacional de Pediatria, 9(2), 45-54.
Pereira, J. (2023). O uso envolvido de medicamentos e seus riscos. Saúde em Foco, 10(1), 78-86.
Martins, V. (2022). Epigenética e estilo de vida saudável. Jornal Científico de Genética, 7(4), 301-310.

25 setembro 2025

Entre confiança e traição: reflexões psicológicas sobre vínculos

A confiança é considerada um dos pilares fundamentais das relações humanas, sendo definida como uma expectativa positiva em relação ao comportamento do outro, baseada em honestidade, previsibilidade e transparência (ROTTER, 1967). Do ponto de vista psicológico, a confiança sustenta vínculos, regula afetos e possibilita a cooperação em diferentes contextos sociais.

Ao analisar a evidência, Erikson (1963) já apontava para a confiança básica como elemento central do desenvolvimento humano, instalada nos primeiros anos de vida a partir da relação com o cuidador primordial. Assim, uma experiência precoce de previsibilidade e afeto fornece bases para que o indivíduo desenvolva relações seguras na vida adulta.




Contudo, a confiança não é estática: ela se constrói de forma processual, pelo acúmulo de interações e pela consistência das atitudes ao longo do tempo (MAYER et al., 1995). Tal construção envolve reciprocidade: não basta afirmar-se confiável, mas sim demonstrar, em ações, comportamentos que expressam coerência entre discurso e prática.

Quando há omissões, mentiras ou traições, surge uma ruptura de confiança. Nesses casos, não apenas questões factuais são abaladas, mas também a percepção subjetiva de segurança relacional (LEWICKI; BUNKER, 1996). A traição, portanto, não se restringe a um ato isolado, como no caso de infidelidade conjugal, mas implica dinâmicas mais amplas de engano, quebra de expectativas e ausência de transparência.

O impacto da perda de confiança é significativo. Estudos apontam que a quebra desse vínculo provoca sentimentos de vulnerabilidade, angústia e retraimento social, podendo gerar dificuldades em relações futuras (REMPEL; HOLMES; ZANNA, 1985). Nesse sentido, a confiança está diretamente relacionada à saúde mental, na medida em que promove estabilidade emocional e controle-se os níveis de estresse interpessoal.

A confiança da confiança exige, além de tempo, comportamentos consistentes de peças, responsabilidade e abertura ao diálogo (KIM et al., 2004). Tais elementos ajudam a restabelecer, gradualmente, a percepção de segurança. No entanto, nem todas as violações permitem tais reparações, exigindo do indivíduo ressignificações pessoais e elaboração do luto da relação perdida.

Portanto, a confiança deve ser entendida como um recurso psicológico e social de extrema importância, cuja preservação contribui para a qualidade dos vínculos interpessoais. O cuidado em manter ações coerentes, transparentes e afetivas é essencial para manter relações saudáveis, fortalecendo tanto a saúde mental quanto os laços humanos.


Referências

ERIKSON, EH Infância e Sociedade . Nova York: Norton, 1963.
KIM, PH et al. Reparando a confiança com indivíduos vs. grupos. Comportamento Organizacional e Processos de Decisão Humana , v. 95, p. 61–77, 2004.
LEWICKI, RJ; BUNKER, BB Desenvolvendo e mantendo a confiança nos relacionamentos de trabalho. Confiança nas Organizações . Thousand Oaks: Sage, 1996.
MAYER, RC; DAVIS, JH; SCHOORMAN, FD Um modelo integrativo de confiança organizacional. Academy of Management Review , v. 20, n. 3, p. 709–734, 1995.
REMPEL, JK; HOLMES, JG; ZANNA, MP Confiança em relacionamentos próximos. Journal of Personality and Social Psychology , v. 49, n. 1, p. 95, 1985.
ROTTER, JB Expectativas generalizadas de confiança interpessoal. American Psychologist , v. 26, n. 5, p. 443, 1967.

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