O trabalho é, historicamente, um dos pilares da identidade humana e da realização pessoal. Segundo Freud (1930), o trabalho é uma das formas mais significativas de inserção social e sublimação dos impulsos. Trabalhar, portanto, não é apenas uma atividade produtiva, mas também um modo de dar sentido à própria existência. Contudo, quando o ambiente profissional se torna um espaço de humilhação, hostilidade ou controle abusivo, ocorre a negação simbólica dessa dignidade, caracterizando o chamado assédio organizacional.
O assédio organizacional, diferentemente das práticas individuais de assédio moral, envolve a cultura da empresa ou instituição como um todo, reforçando padrões de poder e medo. Hirigoyen (2002) define este tipo de violência como “uma deterioração sistemática das relações de trabalho que leva à exclusão e ao sofrimento psicológico”. Tal como em contextos militares ou corporativos rígidos, a hierarquia e a disciplina podem ser distorcidas em instrumentos de dominação.
Do ponto de vista da Psicologia Clínica, o impacto do assédio nos trabalhadores é profundo. Pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022) indicam que o assédio crônico está associado a depressão, ansiedade e esgotamento emocional. Para Dejours (1999), o sofrimento psíquico no trabalho é resultado de um conflito entre o desejo de realização e a imposição de uma estrutura organizacional que desumaniza.
A distinção entre “chefe” e “líder” é essencial para compreender o fenômeno. Enquanto o líder inspira e promove o crescimento coletivo, o chefe autoritário baseia seu poder na coerção e no medo. A psicodinâmica do trabalho (Dejours, 2004) aponta que tal ambiente reduz a confiança e promove o isolamento, diminuindo o desempenho e comprometendo a cooperação entre colegas.
Em instituições públicas, especialmente nas forças de segurança, o problema adquire contornos específicos. A hierarquia militar, quando confundida com autoritarismo, cria contextos favoráveis ao assédio institucional. Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH, 2019), práticas de humilhação e coerção violam princípios fundamentais de dignidade e respeito, mesmo em organizações estruturadas pela disciplina.
Para a Psicologia da Justiça Organizacional, as empresas e corporações devem adotar políticas institucionais de prevenção, canais de denúncia eficazes e formação de lideranças éticas. Tais medidas não só reduzem a violência simbólica, mas favorecem um ambiente de pertencimento e motivação, essenciais para o desempenho saudável.
O combate ao assédio exige uma consciência ampliada sobre o papel das organizações na saúde mental dos trabalhadores. Valorizar a dignidade humana é reconhecer que o respeito deve ser parte da estrutura do trabalho, e não uma concessão do poder hierárquico.
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