02 outubro 2025

🤝 O segredo da escuta ativa e do consenso nas relações humanas

A comunicação interpessoal é um dos pilares das relações humanas, sendo responsável tanto pela construção de vínculos quanto pela geração de conflitos. Em muitos contextos sociais e familiares, prevalece a tendência de pontos de vista importantes, tornando o diálogo um campo de disputa. Segundo Habermas (1989), a ação comunicativa só é possível quando há abertura à compreensão mútua, não quando predomina a necessidade de “ter razão”.

A escuta ativa, conceito difundido por Carl Rogers (1951), é um recurso terapêutico e prático que permite que uma pessoa compreenda não apenas o conteúdo verbal, mas também o sentido subjetivo da mensagem do outro. Escutar ativamente não significa concordar, mas acolher a experiência do interlocutor, validando sua existência.



Por outro lado, as características do “achismo” podem ser entendidas como interpretações rápidas e causas de julgamentos equivocados. Estudos em psicologia cognitiva, como os de Kahneman (2011), mostram que a mente tende a recorrer a atalhos heurísticos, produzindo interpretações muitas vezes distorcidas. Essa pressa cognitiva, quando aplicada nas relações, amplifica mal-entendidos e conflitos.

No campo clínico, observa-se que a dificuldade em escutar está ligada a mecanismos defensivos inconscientes, que servem para proteger o eu da ameaça de perder o controle (FREUD, 1923/2011). Dessa forma, a resistência em ouvir genuinamente o outro nasce do medo de consideração limites ou fragilidades pessoais.

A comunicação saudável pressupõe um processo completo: falar, ouvir e devolver a compreensão, estabelecendo ajustes de significado. De acordo com Watzlawick, Beavin e Jackson (1967), não é possível não comunicar; portanto, todo silêncio ou interrupção também carrega uma mensagem. O papel da escuta é justamente reduzir as distorções desse processo progressivo.

Além disso, pensar em comunicação apenas em termos de persuasão é limitado à sua função. A perspectiva da psicologia humanista propõe que os diálogos sejam espaços de encontro, e não apenas de convenção. É, portanto, fundamental distinguir comunicação de imposição e escuta de mera interpretação.

Essa diferenciação impacta diretamente na saúde mental. Conflitos constantes, baseados na exigência de concordância plena, aumentam os níveis de estresse e prejudicam a convivência. Ao contrário, quando existe acolhimento da diferença, abre-se espaço para que ambas as partes se sintam compreendidas, conduzindo a escalada conflitiva.

Portanto, o consenso não se constrói na eliminação de diferenças, mas sim na permissão do diálogo, onde cada lado amplia sua visão. Como destaca Gadamer (1999), compreender é sempre interpretado, mas a qualidade dessa interpretação depende da abertura para considerar a alteridade.

A psicologia contemporânea, nessa perspectiva, aponta que equilibrar expressão pessoal e receptividade é uma prática fundamental para relações resilientes. Escutar ativo, com calma e cuidado, é mais do que uma técnica: é um exercício de humanidade frente à complexidade dos encontros cotidianos.

Referências

FREUD, S. O Ego e o Id. In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Original de 1923).
GADAMER, H. Verdade e Método. Petrópolis: Vozes, 1999.
HABERMAS, J. Teoria do agir comunicativo. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
KAHNEMAN, D. Rápido e Devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
WATZLAWICK, P.; BEAVIN, J.; JACKSON, D. Pragmática da Comunicação Humana. Nova York: Norton, 1967.

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