01 outubro 2025

Entre Likes e Vazio Interno: Narcisismo e Saúde Mental nas Redes Sociais

 A aparência do narcisismo tem sido amplamente discutida no campo da psicologia, especialmente diante da crescente influência das redes sociais na construção da identidade contemporânea. Sob a perspectiva da psicanálise freudiana, o narcisismo não se resume à vaidade, mas envolve mecanismos de autoimagem, autoestima e relação com o outro (FREUD, 1914/2010).

Dentro da abordagem clínica, o narcisismo pode se manifestar de forma saudável ou patológica. O narcisismo saudável é caracterizado por um investimento equilibrado em si mesmo, expresso no cuidado com a saúde física, na construção da autoestima e na possibilidade de consideração o outro enquanto sujeito de desejo e dignidade. Por outro lado, o narcisismo patológico surge quando o indivíduo perde a capacidade de empatia, buscando incessantemente validação externa como forma de sustentar uma autoimagem frágil (KERNBERG, 2014).



As redes sociais intensificaram essas dinâmicas, funcionando como palco privilegiado para exibição, comparação e validação narcísica. A literatura atual aponta que adolescentes e jovens adultos são especialmente vulneráveis ​​a esse específico, uma vez que se encontram em processo de consolidação da identidade. Estudos recentes associam o uso intenso de plataformas como Instagram e TikTok ao aumento de sentimentos de inadequação, baixa autoestima e transtornos depressivos 
(TWENGE; CAMPBELL, 2018).

No contexto clínico, observa-se que os pacientes frequentemente relatam sofrimento quando suas mensagens não recebem a atenção esperada, demonstrando como a busca por curtidas se tornou um marcador simbólico de valor pessoal. Esse excesso evidencia a passagem do narcisismo saudável para um funcionamento patológico, pautado pela grandiosidade superficial e pela dependência da aprovação alheia (MILLER; CAMPBELL; PILKONIS, 2007).

A psicanálise propõe que, por trás desse narcisismo exacerbado, encontre-se uma estrutura psíquica marcada por fragilidade e insegurança. O sujeito, incapaz de constituir uma autoestima estável, recorre ao olhar do outro como espelho para sustentar sua autoestima. Como afirmam Laplanche e Pontalis (2001), o narcisismo evidencia segundamente a necessidade de ser amado e reconhecido, remetendo a lacunas não elaboradas no desenvolvimento psíquico inicial.

Nesse sentido, a psicoterapia desempenha papel crucial, permitindo que o paciente elabore sua relação com a falta, compreenda a origem do vazio existencial e desenvolva recursos internos para sustentar uma autoestima menos dependente do aprimoramento externo. O processo analítico não busca eliminar o narcisismo, mas promover seu equilíbrio, distinguindo a dimensão saudável da patológica.

Compreender o narcisismo na era digital é, portanto, fundamental tanto para a prática clínica quanto para a reflexão social. Se por um lado as redes sociais oferecem meios de conexão e expressão, por outro lado podem potencializar fragilidades individuais e fomentar um ciclo de comparação e sofrimento. O desafio contemporâneo consiste em construir um uso consciente das mídias digitais, aliado ao fortalecimento da saúde mental e à promoção de uma autoestima estável.

Referências

FREUD, S. Introdução ao Narcisismo (1914). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
KERNBERG, O. Transtornos de personalidade narcisista. Porto Alegre: Artmed, 2014.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, JB Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
MILLER, JD; CAMPBELL, W.; PILKONIS, P. Transtornos de personalidade e dimensões do narcisismo. Jornal de Transtornos de Personalidade , v. 21, p. 117-127, 2007.

TWENGE, J.; CAMPBELL, K. A epidemia de narcisismo: vivendo na era dos direitos. Nova York: Atria Books, 2018.

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