Nos últimos anos, observou-se um crescimento expressivo no número de diagnósticos de transtornos neuropsicológicos, como TDAH e TEA. Entretanto, parte dessa expansão pode estar relacionada à difusão de informações e, por vezes, desinformações nas redes sociais. Como destaca Silva (2023), o contexto sociocultural influencia diretamente a percepção de comportamentos como “neurodivergentes”, o que pode gerar diagnósticos precipitados.
A neuropsicologia clínica propõe que se compreenda o indivíduo dentro de sua trajetória de vida e ambiente social. De acordo com Luria (1981), o funcionamento cognitivo resulta da interação entre o biológico e o cultural. Assim, o aumento das diferenças percebidas pode refletir não apenas fatores neurológicos, mas também mudanças rápidas nas formas de socialização.
O advento das tecnologias digitais transformou a construção da memória e da identidade nas novas gerações. Pesquisas de Turkle (2017) apontam que o uso precoce de dispositivos eletrônicos interfere nas relações interpessoais e na capacidade de atenção sustentada. Dessa forma, crianças que crescem em contextos hiperconectados desenvolvem repertórios simbólicos diferentes, baseados em linguagens digitais.
A neuropsicologia contemporânea reconhece o corpo como espaço de inscrição da experiência. Como lembra Damasio (2010), emoções e memórias se expressam fisiologicamente, compondo uma narrativa corporal da história individual. Assim, fenômenos como ansiedade climática, medo e insegurança social também são memórias incorporadas, que influenciam o funcionamento psicológico.
O sistema educacional enfrenta o desafio de acompanhar essas transformações. A falta de identificação do aluno com o conteúdo e o empobrecimento do repertório linguístico impactam diretamente o aprendizado. Segundo Vygotsky (1984), o desenvolvimento cognitivo é mediado pela linguagem e pela interação social; portanto, reduzir o contato humano em favor do digital limita o potencial de aprendizagem.
Outro ponto crítico é a confusão entre dificuldades escolares e transtornos do neurodesenvolvimento. Muitas crianças apresentam baixo rendimento não por limitações cognitivas, mas por contextos culturais e emocionais que prejudicam o engajamento. Assim, a avaliação neuropsicológica deve considerar fatores ambientais e pedagógicos (APA, 2022).
Por fim, compreender a neurodiversidade requer ampliar o olhar clínico para além do diagnóstico. Trata-se de validar diferenças sem patologizar singularidades, promovendo uma sociedade que reconheça a pluralidade dos modos de pensar, sentir e aprender.
Referências (ABNT):
AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). Washington, DC: APA, 2022.
DAMASIO, A. R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LURIA, A. R. Cognitive Development: Its Cultural and Social Foundations. Cambridge: Harvard University Press, 1981.
TURKLE, S. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books, 2017.
VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
SILVA, J. M. da. Neurodiversidade e sociedade contemporânea: desafios diagnósticos. Revista Brasileira de Psicologia, v. 12, n. 3, 2023.
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