O avanço tecnológico e o domínio das redes sociais têm impactado profundamente a saúde mental nas últimas décadas. As relações humanas migraram do espaço físico para o virtual, trazendo novas formas de interação, mas também de solidão (TURKLE, 2012). Esse fenômeno expõe indivíduos a experiências emocionais mediadas, que reduzem a capacidade de reconhecer emoções genuínas e complexas, essenciais para o desenvolvimento saudável da personalidade.
Pacientes com transtornos de personalidade, como o borderline, demonstram especial vulnerabilidade nesse contexto. Segundo Kernberg (1995), a personalidade borderline é marcada por instabilidade emocional e medo de abandono. Na era digital, a superficialidade das conexões e o imediatismo das comunicações intensificam essas características, produzindo impulsividade e incapacidade de elaborar frustrações (LINEHAN, 2015).
A pandemia de COVID-19 ampliou essa dinâmica, levando as interações sociais quase exclusivamente ao meio online. O isolamento físico reforçou padrões de autoimagem idealizada e a busca por aceitação virtual, distanciando o sujeito de experiências reais de vínculo e empatia (BROWN, 2019). Assim, vivencia-se um contexto onde o “eu digital” passa a ocupar o lugar do “eu real”.
A psicoterapia, nesse cenário, exige um olhar sensível e interdisciplinar. O psiquiatra e o psicólogo devem atuar conjuntamente para restaurar o equilíbrio emocional, considerando tanto as manifestações biológicas quanto as experiências subjetivas do paciente (APA, 2022). A comunicação empática, o olhar clínico e a escuta qualificada são recursos fundamentais para restabelecer o sentido existencial.
A medicalização excessiva de sintomas emocionais revela outro risco contemporâneo: o apagamento da dor como parte natural do desenvolvimento humano. A tristeza, o luto e a frustração, quando patologizados, perdem seu valor como experiências formativas (FREUD, 1917/2010). O resultado é uma geração emocionalmente imatura, que busca evitar o sofrimento a qualquer custo, recorrendo a soluções imediatistas e digitais.
É imperativo, portanto, resgatar a humanidade nas relações e compreender o sofrimento como componente legítimo da existência. A psicologia clínica contemporânea precisa equilibrar tecnologia e sensibilidade, promovendo uma reconexão com o real – onde o olhar, a voz e o toque ainda são insubstituíveis.
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