O avanço tecnológico trouxe transformações significativas na forma como as crianças interagem com o mundo, especialmente através de dispositivos eletrônicos. O uso excessivo de telas tem sido associado a prejuízos no desenvolvimento cognitivo, motor e emocional infantil, configurando-se como um desafio contemporâneo para a psicologia clínica e educacional.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2019), crianças menores de cinco anos devem ter tempo limitado diante das telas, com ênfase em brincadeiras físicas e interações sociais presenciais. Entretanto, observa-se um padrão de sobreexposição digital que substitui o brincar espontâneo, essencial para o desenvolvimento do sistema nervoso e das habilidades socioemocionais (PAPALIA; FELDMAN, 2018).
A gênese desse fenômeno, conforme discutido na entrevista analisada, frequentemente se dá na primeira infância, quando pais, sobrecarregados pela rotina, recorrem a dispositivos como forma de compensação ou distração. Essa prática, embora conveniente, retira da criança oportunidades fundamentais de descoberta, interação e pertencimento (BORGES; SOARES, 2021).
Do ponto de vista psicológico, o isolamento digital precoce prejudica a construção do “ser”, conceito existencial que se contrapõe ao “ter”. Inspirando-se na psicologia humanista de Carl Rogers (2009), o desenvolvimento da autenticidade e do autoconhecimento ocorre em contextos de relação e experiência sensorial real com o outro. Sem tais vivências, observa-se um aumento de transtornos como ansiedade, depressão e déficit de atenção (APA, 2023).
O corpo, nesse cenário, perde a função expressiva e integradora, tornando-se mero suporte biológico. Segundo Wallon (1942), o movimento e o gesto são estruturantes da personalidade, e sua limitação repercute na formação da consciência e da afetividade. A criança que não corre, não cai, não se suja, perde parte de sua experiência de mundo e comprometendo o equilíbrio emocional futuro.
Na dimensão educacional, a falta de acolhimento e de práticas pedagógicas integrativas reforça sentimentos de incompetência e aversão à atividade física e social, levando à exclusão e ao retraimento social (FREIRE, 1996). O ambiente escolar, portanto, deve recuperar o papel de convite à experimentação e à convivência, substituindo a lógica competitiva pela integrativa.
Portanto, compreender o impacto do excesso de telas na infância é também refletir sobre o papel da família e da sociedade na formação do “ser humano” em sua plenitude. A revalorização do contato humano, da natureza e do lúdico constitui não apenas uma recomendação terapêutica, mas uma exigência ética para o futuro da saúde mental infantil.
Nenhum comentário:
Postar um comentário