A geração Z, formada por jovens nascidos entre meados da década de 1990 e início de 2010, é marcada por uma imersão digital sem precedentes. Essa vivência constante nas redes molda sua forma de perceber a realidade, afetando profundamente os vínculos afetivos e a constituição da identidade (Twenge, 2017). No ambiente clínico, observa-se uma crescente fragilidade psíquica, associada à busca por validação virtual e à dificuldade de interações presenciais.
O fenômeno da "vida em matrix" expressão frequentemente usada por jovens pacientes representa a sensação de existir em um ambiente simulado, sem pertencimento real. Segundo Turkle (2011), essa alienação emocional está vinculada à hiperconectividade e ao imediatismo das interações digitais, que substituem o contato humano pelo desempenho tecnológico.
Outro ponto central é o aumento de diagnósticos de transtornos de personalidade, especialmente o borderline. Contudo, muitos desses casos são autodiagnósticos derivados de informações da internet. A literatura clínica reforça que diagnósticos apressados podem reduzir a complexidade da experiência humana a rótulos limitantes (Silva, 2021). Assim, cabe ao psicólogo restituir o olhar humanizado e compreender o paciente além do enquadramento nos critérios diagnósticos.
O setting terapêutico contemporâneo deve promover o resgate do eu existencial, ou seja, reconectar o sujeito com sua presença no mundo e com suas emoções reais. De acordo com Winnicott (1975), o encontro clínico é espaço de construção do self autêntico por meio da experiência relacional genuína, o que contrasta com a superficialidade digital.
Além disso, observa-se que as relações interpessoais da geração Z são mediadas por redes, o que acentua o sentimento de isolamento. Estar conectado não equivale a estar em relação, e o excesso de exposição tende a produzir desconexão emocional (Baumann, 2008). Essa condição pode favorecer quadros de ansiedade, depressão e instabilidade afetiva.
Portanto, a clínica moderna enfrenta o desafio de acolher sujeitos afetados por um ambiente cibernético que redefine vínculos, identidade e confiança. O papel do terapeuta é facilitar o retorno ao real, oferecendo um espaço de escuta capaz de sustentar a complexidade psíquica e a dimensão humana do sofrimento.
Referências (ABNT):
BAUMANN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
SILVA, A. M. Diagnósticos e subjetividade: crítica à clínica do rótulo. São Paulo: Cortez, 2021.
TURKLE, S. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books, 2011.
TWENGE, J. M. iGen: Why Today's Super-Connected Kids Are Growing Up Less Rebellious, More Tolerant, and Completely Unprepared for Adulthood. New York: Atria, 2017.
WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1975.
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