A invisibilidade emocional nas trajetórias de adoção e acolhimento institucional
A condição emocional das crianças em situação de vulnerabilidade é um tema de crescente relevância na Psicologia Clínica, pois envolve dimensões afetivas, sociais e políticas profundas. Crianças submetidas a processos de abandono e adoção frequentemente chegam a esses contextos com marcas psíquicas de traumas prévios e desestruturação familiar. Segundo Winnicott (1993), o desenvolvimento emocional saudável depende da presença de um ambiente suficientemente bom, capaz de oferecer segurança e continuidade ao self infantil.
O acolhimento institucional, embora vise proteção, muitas vezes reproduz situações de desamparo. Isso ocorre quando o Estado falha na prevenção das vulnerabilidades sociais e transfere ao sistema judiciário a responsabilidade por fenômenos originados na exclusão econômica e emocional. Bronfenbrenner (1996) descreve que o ambiente ecológico do desenvolvimento humano é composto por múltiplos sistemas interconectados; quando um deles colapsa, o desenvolvimento integral da criança é comprometido.
Devoluções em adoções, como relatadas por profissionais que atuam em serviços de acolhimento, representam rupturas devastadoras no vínculo afetivo e na estrutura narcísica do sujeito. Esses eventos produzem o que Rudge (2011) denomina “retraumatização institucional”, um processo no qual a criança revivencia o abandono, agora sob a égide de uma decisão formalmente legítima.
Por outro lado, a psicologia humanista e o olhar clínico empático apontam caminhos de reparação. Rogers (1975) defende que o reconhecimento incondicional da experiência subjetiva do outro é base essencial para qualquer processo terapêutico. Nesse sentido, políticas públicas voltadas à assistência psicossocial, educação e fortalecimento familiar são fundamentais para prevenir o ciclo de abandono.
A negligência do Estado em prover suporte adequado às famílias em risco social resulta na perpetuação do sofrimento intergeracional. Estudos recentes do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2021) indicam que a ausência de programas preventivos de apoio parental correlaciona-se diretamente com o aumento de crianças institucionalizadas.
É urgente, portanto, uma ação integrada que una psicólogos, assistentes sociais, magistrados e educadores em torno de uma agenda comum: reconhecer a criança como sujeito de direitos afetivos. Mais do que oferecer abrigo físico, é preciso restaurar o sentido de pertencimento e identidade, essenciais para o desenvolvimento pleno do self.
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