A cirurgia bariátrica, cada vez mais utilizada no tratamento da obesidade mórbida, vem sendo indicada como um procedimento que transcende a aparência física. Ao reduzir a capacidade gástrica e impactar diretamente na deficiência psicológica alimentar, a intervenção exige uma preparação rigorosa que muitas vezes é negligenciada pelo paciente. O olhar psicológico é essencial para que a cirurgia não se torne mais um ciclo de frustração, compulsão e sofrimento.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), a indicação do procedimento deve sempre ser acompanhada de avaliação multiprofissional, incluindo o suporte psicológico (SBCBM, 2023). Pacientes que chegam ao consultório em busca apenas de um laudo demonstram um desconhecimento sobre as implicações emocionais, cognitivas e sociais da cirurgia. Esse comportamento pode sinalizar a ausência de adesão a mudanças de hábitos — fator crítico para o sucesso do tratamento.
O pré-operatório costuma ser marcado por comportamentos de “despedida alimentar”, nos quais o indivíduo intensifica a ingestão de doces, frituras e bebidas, em um quadro que se aproxima da compulsão alimentar. Sem intervenção psicoterapêutica, esse padrão tende a se repetir no pós-operatório, com o risco de reganho de peso em médio e longo prazo (COUTINHO; APPOLINÁRIO, 2021).
Outro desafio significativo relatado pelos profissionais é a disforia corporal. Muitos pacientes, mesmo após perda substancial de peso, seguem com a autoimagem de obesidade, o que pode precipitar quadros de anorexia, ansiedade e depressão (CAMPOS; FERREIRA, 2019). Somam-se a isso as limitações alimentares permanentes, a possibilidade de cirurgias reparadoras e complicações clínicas, como dumping e fístulas, que desativam um acompanhamento constante.
Do ponto de vista da psicologia clínica, é necessário adotar uma abordagem integrativa, que contemple os fatores biopsicossociais. Isso significa olhar não apenas para a compulsão alimentar, mas também para a estrutura familiar, relações afetivas e suporte social do paciente. Estudos demonstram que pacientes com rede de apoio mais sólida apresentam melhores chances de adesão às mudanças permitidas (OLIVEIRA; SILVA, 2020).
A negligência a esses aspectos pode transformar o tratamento da obesidade em um risco existencial. Como destaca Freud (1920/1996), a reprodução de padrões sintomáticos tende a levar a sujeito novamente ao desprazer. Assim, sem tratamento da compulsão, a cirurgia pode se tornar apenas um paliativo, incapaz de romper com mecanismos psíquicos subjacentes.
Portanto, a bariátrica deve ser entendida como um processo, não um fim. A psicoterapia antes, durante e após a cirurgia é uma ferramenta essencial para ressignificar a relação com o alimento e com o corpo. O laudo psicológico não pode ser compreendido como mera formalidade, mas como parte de um processo clínico comprometido com a saúde global do paciente. Afinal, mais do que emagrecer, é preciso aprender a viver de outro modo após a cirurgia.
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